domingo, 8 de agosto de 2021

Angicos: Em 1963, Angicos colocava Paulo Freire no New York Times

 

Em 1963, Angicos colocava Paulo Freire no New York Times



Em 2 de junho de 1963, a edição do jornal americano New York Times tinha 404 páginas. Na página 18, ocupando apenas uma coluna, o nome da cidade potiguar de Angicos era escrito pela primeira – e talvez única – vez no jornal. A chamada da reportagem era “BRASIL REALIZA UM MOVIMENTO DE ALFABETIZAÇÃO”, e apresentava ao mundo o pensamento do professor pernambucano Paulo Freire, que havia implantado no RN o projeto ’40 horas de Angicos’.

No próximo mês de setembro, será comemorado o centenário do nascimento de Paulo Freire. Ele é o patrono da educação brasileira, um dos mais respeitados educadores em todo o mundo e conseguiu desenvolver um pensamento tão transformador sobre educação que até hoje suas palavras e métodos de alfabetização apavoram governantes e políticos com inclinações fascistas. Não à toa, é um dos principais nomes combatidos pelo governo de extrema direita de Jair Bolsonaro.



E para celebrar o centenário, a AGÊNCIA SAIBA MAIS começa hoje uma série de reportagens e artigos especiais que serão publicadas até setembro, mostrando quem foi Paulo Freire, a importância dele para a educação brasileira e mundial, e mostrando a importância do RN nessa história toda.

A reportagem do New York Times descreveu o projeto “40 Horas de Angicos”, que tinha o apoio financeiro dos EUA (que tentava combater a disseminação do comunismo pelo mundo. Eram os tempos da Guerra Fria). Com os primeiros resultados do projeto e conclusão da primeira turma alfabetizada, o investimento estava sendo ampliado a partir daquele período. O projeto de Paulo Freire tinha o ousado objetivo de alfabetizar adultos de forma rápida e barata.

Depois da reportagem do New York Times, as atenções da imprensa internacional se voltaram para a experiência implantada na pequena Angicos – distante 194 km de Natal. Na época, a cidade tinha pouco mais de 9 mil habitantes, dos quais 75% moravam na zona rural. Antes de iniciar o projeto, um levantamento da equipe de Paulo Freire mostrou que 75% da população adulta do município era analfabeta.

No livro livro ‘40 Horas de Esperança”, Calazans Fernandes e Antônia Terra apontam que a pequena Angicos recebeu correspondentes de jornais como: Time Magazine, Herald Tribune, Sunday Times, United e Associated Press e Le Monde. Começa, então, a disseminação do nome Paulo Freire.

Angicos não tinha FELICIDADE mas falava em ESPERANÇA
O primeiro passo do projeto ”40 horas de Angicos” era o de catalogar as palavras usadas pelo grupo de alunos. Eram a partir dessa palavras que se trabalharia as aulas de alfabetização. A primeira turma recebeu o diploma de alfabetização em 2 de abril de 1963.

Os educadores catalogaram em Angicos 380 palavras que eram costumeiramente usadas pelos moradores da cidade. Naquela época, FELICIDADE não estava relacionada. No vocabulário relacionada à comunicação dos 300 alunos da primeira turma da experiência, DEUS, PROMESSA, ESMOLA, CHUVA, BELOTA, TRISTE, ALVOROÇO, MEDO, CORAGEM, CONFORMAÇÃO e INVERNO. E essa bolha ortográfica e fonética ainda pode demonstrar, quase 70 anos depois, as características culturais e sociais que envolviam o interior do Rio Grande do Norte.

Vários estudos foram realizados ao longo das últimas décadas sobre a experiência em Angicos. Em um desses, em 2002 , a educadora Nilcéa Lemos Pelandré analisou os “efeitos a longo prazo do método de alfabetização”. Para o trabalho, ela entrevistou alunos da primeira turma do projeto e apontou que os participantes aprenderam a escrever palavras isoladas e frases simples e curtas.Mas, segundo a pesquisadora, a aprendizagem mais significativa identificada nos alunos foi a elevação da autoestima e a consciência de não se sentirem mais excluídos do mundo letrado.

advogado potiguar Marcos Guerra, que participou diretamente da equipe do projeto de Angicos disse, em entrevista concedida quando o projeto completou 50 anos que “o cunho político do projeto”era forte. “Ou a educação é feita no sentido libertador ou domesticador. E o cunho político é inerente à educação. A educação não é neutra”.



No livro de Calazans – que foi secretário de Educação do RN – ele pontua que ESPERANÇA estava entre as palavras usadas pelos estudantes de Angicos. E essa esperança havia sido renovada após as aulas, como bem descreveu o aluno Antônio Silva, à época com 51 anos. Ele foi o orador da turma na solenidade de conclusão do curso.

“Temos muita necessidade das coisas que nós não sabia, e que hoje estamos sabendo. Em outra hora, nós era massa, hoje já não somos mais, estamos sendo povo”.


Projeto ‘engordava cascaveis’, diziam militares
Na solenidade de diplomação da primeira turma, Angicos recebeu as maiores autoridades do Brasil: o presidente da República, João Goulart, o então governador do RN Aluízio Alves, ministros de Estado, governadores do Nordeste, monitores do projeto, os 300 alunos e suas famílias.

Fardado, lá estava, também, o general Castelo Branco, que um ano após aquela solenidade, assumiu a presidência da República com o golpe militar de 1964. O general não fez pronunciamento público no encontro, mas disse a Calazans Fernandes a famosa e conhecida frase de que o projeto estava “engordando cascaveis”. Um ano após a solenidade de formatura, um dos atos de Castelo Branco foi o de desarticular o grupo do educador Paulo Freire, que foi preso e exilado. O advogado Marcos Guerra, coordenador do projeto de Angicos, também foi preso e exilado.

Projeto foi difundido para outras cidades e estados
Com o sucesso de Angicos, o projeto foi expandido para outras cidades do RN (Natal-Quintas, Mossoró, Caicó e Macau) e de outros Estados do país: Ubatuba (SP), Osasco (SP), Rio de Janeiro, Brasília, Aracaju (SE) e Porto Alegre (RS).

A experiência serviu de exemplo para o um projeto nacional de alfabetização e em janeiro de 1964, um decreto federal reconhecia o “Sistema Paulo Freire para alfabetização em tempo rápido”. A ideia era a criação de 60 mil grupos, para alfabetizar, em 1964, 1,8 milhão  de pessoas. E Paulo Freire foi designa pelo MEC para a Comissão Especial do Programa.

Mas não saiu do papel. Em 14 de abril de 1964, apenas 13 dias após o Golpe de Estado, o Decreto nº 53.886, de 14 de abril de 1964, extingue o Programa Nacional. Dois meses depois, em 16 de junho, Paulo Freire foi preso, acusado de “subversivo e ignorante”. No RN, o advogado Marcos Guerra também foi preso e exilado.

Angicos traria Kennedy ao RN
Em outubro de 1963, após a repercussão na imprensa mundial,  de pessoas. E Paulo Freire foi designa pelo MEC para a Comissão Especial do Programa.

Mas não saiu do papel. Em 14 de abril de 1964, apenas 13 dias após o Golpe de Estado, o Decreto nº 53.886, de 14 de abril de 1964, extingue o Programa Nacional. Dois meses depois, em 16 de junho, Paulo Freire foi preso, acusado de “subversivo e ignorante”. No RN, o advogado Marcos Guerra também foi preso e exilado.

Em outubro de 1963, após a repercussão na imprensa mundial, um grupo da Embaixada norte-americana visita o então governador Aluízio Alves. A ideia, segundo o livro de Calazans, era preparar a visita do presidente John Kennedy. Essa agenda estava planejada para dezembro daquele ano. Kennedy foi assassinado, em Dallas, um mês após a reunião.

O projeto de Angicos foi possível a partir de convênio celebrado, em dezembro de 1962, entre o MEC, a Sudene , o Estado do RN e a Usaid (United States Agency for International Development), dentro dos propósitos da Aliança para a Progresso, celebrada entre os Estados Unidos e países da América Latina com o objetivo de impedir a disseminação do comunismo no continente.

Veja aqui o PDF da reportagem do NYT que mostrou Paulo Freire ao mundo!

Fonte: saibamais.jor.br


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