sexta-feira, 13 de maio de 2016

Falso cadeirante no revezamento da tocha? Atletas comentam episódio que viralizou nas redes sociais

Falso cadeirante no revezamento da tocha? Atletas comentam episódio que viralizou nas redes sociais

Fonte:www.rio2016.com
Por Patricia da Matta
'Passo' durante queda de jogador na passagem da chama repercute negativamente e pessoas com deficiência reagem com pedido de conscientização popular

João Paulo Nascimento passa a tocha Rio 2016 para próximo condutor após cair da cadeira de rodas (Foto: Rio 2016/André Mourão)

Mais do que uma competição para pessoas com deficiência, os Jogos Paraolímpicos são exemplo de excelência esportiva. Só que, na jornada rumo ao topo do pódio em suas modalidades, atletas têm outro obstáculo a superar: o preconceito. Um exemplo aconteceu na quarta-feira (4) durante o revezamento da tocha Olímpica Rio 2016 pela cidade de Anápolis, em Goiás. O jogador de basquetebol em cadeira de rodas João Paulo Nascimento tentou reproduzir uma manobra típica de seu esporte, ao passar a chama ao próximo condutor, quando se desequilibrou e caiu. Para se proteger do impacto da queda, o atleta teve a reação espontânea de apoiar o pé no chão - uma demonstração de que detém o movimento das pernas.

A cena é corriqueira para quem está familiarizado com o esporte Paraolímpico – em especial o basquetebol em cadeira de rodas, uma das modalidades com maior número de ‘tombos’. Entretanto, causou estranhamento entre internautas que desconhecem que o uso de cadeira de rodas não se limita a casos de paraplegia ou perda total do movimento das pernas. O resultado? O vídeo da queda viralizou nas redes sociais e João Paulo foi acusado de ser um ‘falso cadeirante’ (assista ao momento da queda abaixo).



Nascimento não tem mesmo diagnóstico de paralisia, mas se engana quem pensa que o uso da cadeira de rodas se limita a este tipo de deficiência. Aos 20 anos, ele obteve o diagnóstico de geno valgo, deformidade na anatomia dos joelhos que afeta o alinhamento das pernas. E, assim como o atleta, são muitas as pessoas que, mesmo com algum nível de controle dos movimentos nos membros inferiores, utilizam cadeira de rodas para se locomover e praticar esportes. “Não uso a cadeira no meu dia a dia, mas não consigo correr nem ficar em pé por muito tempo”, contou.
“São muitas as patologias que requerem o uso da cadeira de rodas para a prática esportiva: lesão medular completa ou incompleta, limitação motora, amputações, patologias anatômicas. Não é porque o atleta não usa a cadeira no dia a dia que ele não precise dela para a pratica esportiva. Vemos situações como essa o tempo todo. Podem jogar tênis em cadeira de rodas, por exemplo, todos aqueles que não conseguem jogar em pé. É simples assim”, explica o professor de educação física Guilherme Lopes, 40 anos, que trabalha com atletas Paraolímpicos desde 2003.

Resposta nas redes sociais
Impressionado com a repercussão negativa nas redes sociais, Nascimento publicou um vídeo no Facebook para explicar o ocorrido. A mensagem, que destaca que o reflexo do atleta nada tem a ver com “milagre” já soma mais de 295 mil visualizações.


“Quis fazer a manobra com a cadeira para mostrar a nossa modalidade (basquete em cadeira de rodas) para o Brasil. Fico triste com os comentários maldosos, mas (conduzir a tocha) foi um momento ímpar na minha vida", disse.

Quem também chamou a atenção no Facebook foi a jornalista Patrícia Côrtez, de 24 anos. A analista de mídias sociais do Comitê Rio 2016 fez um paralelo do episódio com sua própria experiência como cadeirante e levantou a discussão sobre discriminação e preconceito contra pessoas com deficiência. Seu post foi reproduzido no site Razões para Acreditar e compartilhado por mais de 40 mil pessoas.


“Tenho 24 anos e deficiência física desde que nasci. Há pelo menos 10 anos, uso cadeira de rodas. Mas, como podem ver até pela foto, isso não significa que eu fique lá, estática (...) as deficiências são diferentes em cada um, pessoas com deficiência não se encaixam no estereótipo do cara que não mexe nada, que não faz nada, que vive uma existência miserável. Cada um dá seu jeito de tocar a vida assim mesmo. Não se acostume com o estereótipo de "vegetal" e de "coitadinho", diz o texto.

Repercussão entre os atletas


Atletas Paralímpicos também saíram em defesa da mudança de percepção em relação às pessoas com deficiência. “Infelizmente só quem tem mais contato com o esporte Paralímpico sabe dos inúmeros tipos de deficiência e que nós podemos sim ser ativos. Espero que a realização dos Jogos Paralímpicos aqui no Brasil sirva para mostrar do que somos capazes”, disse a tenista brasileira Natalia Mayara, que teve as pernas amputadas após um atropelamento aos dois anos de idade. Hoje, ela é a brasileira mais bem classificada no ranking mundial do tênis em cadeira de rodas.

“A maioria das pessoas pensa sempre a mesma coisa, que não conseguimos fazer nada, que precisamos de ajuda”

Natalia Mayara, campeã Pan-Americana de tênis em cadeira de rodas
Para a campeã do halterofilismo Marcia Menezes, o preconceito contra pessoas com deficiência já diminuiu no país, mas ainda falta de informação. “Fiquei indignada com algumas coisas que falaram. O preconceito já é menor, mas as pessoas ainda precisam aprender mais sobre o assunto. Tenho sequela de poliomelite na perna direita, então não mexo essa perna, mas a outra funciona perfeitamente – até melhor, porque trabalho muito para compensar. Se eu caísse, teria o mesmo reflexo que ele (João Paulo) teve”, disse.

“A sociedade tem essa visão fechada sobre o usuário de cadeira de rodas, o que gera um estigma muito negativo. A cadeira de rodas nada mais é do que um instrumento de auxílio de locomoção, um recurso tecnológico. Todo mundo pode usar em determinado momento da vida”
Guilherme Lopes, professor de educação física 
Marcia Menezes, que entrou para a história do halterofilismo no Brasil ao se tornar a primeira atleta a conquistar uma medalha em mundiais, concorda com Lopes. “Só comecei a usar cadeira de rodas em 2011, quando fui para uma competição internacional e percebi que me desgastava muito ao me locomover. Desde então, aprendi a usar e me sinto muito melhor. Dentro de casa, eu não uso, mas para distâncias mais longas só vou de cadeira”, contou.

Mesmo sem deficiência, o tenista Bruno Soares experimentou a modalidade em cadeira de rodas com Natalia Mayara durante evento-teste do Rio 2016 (Foto: Daniel Zappe/CPB/MPIX)

Que tal conhecer antes de acusar?


Com critérios específicos para cada modalidade, os Jogos Paralímpicos seguem o sistema de classificações funcionais para garantir o nivelamento entre os competidores, no qual, regularmente, atletas passam por avaliações físicas e técnicas junto às Federações Internacionais.

A divisão se dá entre cinco tipos de deficiências: paralisados cerebrais, deficientes visuais, atletas em cadeira de rodas, amputados e os chamados “les autres” – na qual se enquadram os que não podem ser colocados nas outras categorias. Para cada uma delas existe uma série de classes funcionais, que determinam o grau da deficiência.




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